A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) abre nesta quinta-feira (10) uma consulta pública sobre o Leilão de Transmissão nº 01/2027, previsto para acontecer em 30 de abril de 2027, na sede da B3, em São Paulo.
O leilão poderá contratar 12 lotes de obras e instalações de transmissão em 13 estados. Juntos, os projetos somam 3.245 quilômetros de novas linhas de transmissão e 1.386 MVA de capacidade de transformação.
A estimativa da ANEEL é de R$ 12,9 bilhões em investimentos e a criação de aproximadamente 29,5 mil empregos diretos e indiretos.
Mas há uma novidade que chama a atenção: pela primeira vez, um leilão de transmissão no Brasil deverá contratar um sistema de armazenamento de energia por baterias.
A proposta está em consulta pública e ainda poderá sofrer alterações antes da publicação definitiva do edital.
Baterias serão usadas para melhorar o fornecimento no Acre
O sistema de baterias está previsto no Lote 5, que contempla uma instalação em Cruzeiro do Sul, no Acre.
O projeto terá capacidade de 100 MW de potência e 200 MWh de armazenamento e será conectado à rede de 69 kV.
Na prática, a bateria poderá armazenar energia e disponibilizá-la quando necessário, funcionando como parte da infraestrutura utilizada para garantir maior confiabilidade ao atendimento dos consumidores da região de Cruzeiro do Sul e Feijó.
É uma mudança importante na forma de pensar a infraestrutura de transmissão. Tradicionalmente, os leilões desse segmento contratam principalmente linhas, subestações e equipamentos que ajudam a transportar e controlar a energia elétrica.
Agora, o armazenamento também passa a fazer parte desse conjunto de soluções.
O projeto utilizará baterias com tecnologia chamada grid-forming, desenvolvida para contribuir também para a estabilidade da rede elétrica.
Outra diferença está no prazo do contrato. Os demais lotes do leilão terão contratos de 30 anos, enquanto o sistema de baterias terá duração de 18 anos, em razão da vida útil prevista para os equipamentos.
O que está sendo leiloado?
Os 12 lotes propostos pela ANEEL incluem diferentes tipos de obras.
Há projetos para construção de novas linhas de transmissão, ampliação de subestações e instalação de equipamentos que ajudam a controlar as condições elétricas da rede.
Os empreendimentos estão distribuídos por:
Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo.
Depois que os contratos forem assinados, as empresas vencedoras terão entre 36 e 60 meses para concluir as obras, dependendo do empreendimento.
E Mato Grosso do Sul?
Mato Grosso do Sul está incluído no Lote 11, que prevê instalações relacionadas à ligação elétrica entre o Brasil e a Bolívia.
Entre os projetos está uma linha de transmissão de 500 kV, com aproximadamente 35 quilômetros, entre a Subestação Corumbá 2 e a fronteira brasileira com a Bolívia.
O lote também prevê:
uma linha de transmissão de 230 kV entre Anastácio e Imbirussú, com 119 quilômetros;
uma estação conversora capaz de fazer a conexão entre sistemas de corrente alternada e corrente contínua;
equipamentos para melhorar as condições de operação da rede.
A estação conversora terá capacidade de ±420 MW e utilizará tecnologia VSC.
Apesar de estar incluído na proposta atualmente em consulta, o Lote 11 ainda não está confirmado definitivamente. Segundo a ANEEL, sua inclusão depende da definição das instalações no Plano de Outorgas e de requisitos relacionados ao acordo internacional entre Brasil e Bolívia.
Outros projetos ainda dependem de confirmação
O Lote 12, que envolve Ceará e Rio Grande do Norte, foi planejado para atender novas cargas de grande consumo de energia na Região Nordeste.
A permanência desse lote no leilão depende da confirmação do volume de acessos ao sistema de transmissão até 16 de novembro.
Já os Lotes 6 e 7 têm uma estrutura diferente. Eles serão divididos em sublotes e terão uma forma específica de disputa.
Em vez de simplesmente escolher o menor preço para cada parte, a ANEEL vai comparar duas possibilidades: o valor apresentado por um participante para executar o lote inteiro e a soma dos menores valores apresentados para cada sublote.
A alternativa mais econômica será considerada na escolha.
O que é uma consulta pública?
Antes de transformar a proposta em um edital definitivo, a ANEEL abre espaço para que empresas, especialistas, entidades e outros interessados apresentem sugestões.
É justamente essa etapa que começou agora.
A Consulta Pública nº 032/2026 ficará aberta de 10 de setembro a 26 de outubro.
As contribuições podem ser enviadas pelo e-mail cp032_2026@aneel.gov.br.
A minuta do edital e os demais documentos da consulta estão disponíveis no site da ANEEL, na área de participação social.
Depois do encerramento da consulta, a Agência vai analisar as contribuições recebidas e poderá fazer alterações na proposta.
O edital ainda deverá passar por uma deliberação da Diretoria da ANEEL. Se for aprovado, seguirá em dezembro para análise do Tribunal de Contas da União (TCU).
Só depois dessas etapas o processo estará pronto para chegar ao leilão previsto para abril de 2027.
Veja onde estão os 12 lotes
Lote | Principais obras | Estado(s) | Prazo |
|---|---|---|---|
1 | Linha de 500 kV entre Santos Dumont 2 e Leopoldina 2, com 94,34 km | MG | 48 meses |
2 | Linha de 230 kV entre Messias e Arapiraca III, com 126,5 km | AL | 48 meses |
3 | Duas linhas de 230 kV e uma subestação | RS | 48 meses |
4 | Linhas de 230 kV entre Tucumã, Feijó e Cruzeiro do Sul, totalizando 631 km | AC | 60 meses |
5 | Sistema de baterias de 100 MW/200 MWh | AC | 36 meses |
6 | Três sublotes com compensadores síncronos em Campinas, Lorena e Taubaté | SP | 42 meses |
7 | Quatro sublotes com compensadores síncronos | BA/PI | 42 meses |
8 | Linhas e subestações de 230 kV | GO/MT | 54 meses |
9 | Linhas e subestação de 500 kV | CE/RN | 60 meses |
10 | Linhas, subestação e compensação síncrona | PA | 54 meses |
11 | Instalações relacionadas à interligação Brasil–Bolívia | MS | 60 meses |
12 | Linhas e subestações de 500 kV | CE/RN | 54 meses |
Por que esse leilão é importante?
A rede de transmissão funciona como uma espécie de grande sistema de estradas da eletricidade. Ela permite transportar a energia produzida pelas usinas até as regiões onde ela será consumida.
Quando novas linhas e subestações são construídas, o sistema passa a ter mais capacidade para transportar energia e atender ao crescimento da demanda.
Os projetos previstos para o Leilão de Transmissão nº 01/2027 representam, portanto, uma ampliação da infraestrutura elétrica brasileira.
A presença de um sistema de baterias também mostra que a expansão da rede começa a incorporar novas tecnologias. O armazenamento pode ser utilizado para oferecer maior flexibilidade à operação do sistema, especialmente em situações nas quais seja necessário equilibrar oferta e demanda ou melhorar as condições de atendimento de determinadas regiões.
No caso do projeto previsto para Cruzeiro do Sul, a finalidade definida pela ANEEL é aumentar a confiabilidade do atendimento elétrico no Acre.
Ainda não é a contratação definitiva
É importante diferenciar a consulta pública do leilão.
Neste momento, a ANEEL está recebendo contribuições sobre a proposta. Os projetos ainda passarão por outras etapas antes de serem efetivamente leiloados.
Por isso, valores, obras e até a composição dos lotes ainda podem sofrer alterações.
Se a proposta avançar conforme o cronograma previsto, o leilão será realizado em 30 de abril de 2027.
Até lá, a sociedade poderá participar do processo por meio da consulta pública aberta pela ANEEL.